“Brasília só tem branco”: DF dobra casos de racismo em apenas 8 anos

Dados são da Polícia Civil do DF. No ano passado, corporação registrou 870 ocorrências de injúria racial, número recorde na década

O caso da moradora do Distrito Federal presa após ofender um policial negro dizendo que “em Brasília só tem branco”, em 21 de abril, bem como as agressões físicas e verbais contra um advogado negro em um bar no Setor Bancário Sul (SBS), em março deste ano, revelam um cenário que preocupa as autoridades: os casos de injúria racial na capital do país dobraram nos últimos nove anos.

Os dados são da Polícia Civil do DF (PCDF) e indicam o número de ocorrências registradas tendo o crime de injúria racial como natureza. O levantamento foi solicitado pelo Metrópoles via Lei de Acesso à Informação (LAI) e analisa os dados de janeiro de 2017 a 23 de março de 2026.

Em 2017, a PCDF registrou 431 ocorrências de injúria racial, crime equiparado ao racismo desde 2023. O número foi aumentando ao longo dos anos até chegar a 870 casos em 2025, representando alta de 101,8%.

Houve aumento significativo de 2020 para 2021, quando as ocorrências registradas saltaram de 432 para 596. Depois, os números seguiram em crescente.

Confira no gráfico:

O levantamento completo da PCDF elenca crimes como injúria preconceituosa por sexo ou gênero, discriminação racial, discriminação por orientação sexual, entre outros. Há alta nos registros em quase todos os delitos.

Os casos de discriminação religiosa, por exemplo, subiram de 16 para 73 de 2017 até 2024. O “boom” fica ainda mais evidente quando nota-se que, entre janeiro e março de 2026, já foram registrados 20 casos, número maior do que os 16 de 2017.

Os casos de injúria preconceituosa contra idosos e/ou pessoas com deficiência também subiram: enquanto em 2017 os sistemas da PCDF computaram 155 ocorrências, o quantitativo subiu para 212 registros em 2025. Em 2026, já são 61 casos.

Coragem para denunciar aumentou, diz delegado

O delegado da Polícia Civil do DF Marco Farah, da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), acredita que o aumento de registros não significa que a capital se tornou mais preconceituosa. Para Farah, a “coragem de denunciar” é que vem crescendo entre a população.

“O aumento dos números não significa necessariamente que a sociedade se tornou mais racista ou intolerante em 10 anos, mas que o letramento jurídico e a coragem de denunciar aumentaram”, avalia.

Ainda de acordo com Farah, a Lei nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo, causou no brasiliense a sensação de que o criminoso pagará com maior rigor por seus atos.

“Esse aumento vertiginoso entre 2022 e 2023 reflete a alteração legislativa que equiparou a injúria racial ao crime de racismo, aumentando a pena-base, o que pode ter encorajado mais vítimas a denunciarem, sabendo do maior rigor penal”, comenta o delegado.

Injúria racial = racismo

O crime de racismo é caracterizado quando o agressor atinge um grupo ou coletividade com base em raça, cor, etnia, religião ou origem. Já a injúria racial ocorre quando o criminoso ofende a honra de uma pessoa específica, e não um conjunto.

Juridicamente, no entanto, como lembrou o delegado da PCDF Marco Farah, a Lei nº 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando o delito inafiançável e imprescritível. Sancionada em janeiro de 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a lei prevê pena de prisão de 2 a 5 anos mais multa ao infrator.

A medida prevê ainda suspensão de direito em caso de racismo praticado no contexto de atividade esportiva ou artística, além de reclusão para racismo praticado por funcionário público e para racismo religioso e recreativo.

“É que em Brasília só tem branco”

Como mencionado no início da reportagem, uma mulher de 74 anos, moradora do DF, foi presa em Salvador (BA), no último dia 21, após protagonizar um caso suspeito de racismo na orla entre os bairros Rio Vermelho e Ondina. De acordo com a Polícia Militar da Bahia (PMBA), a brasiliense ofendeu um policial negro. “É que em Brasília só tem branco e não tem ninguém armado desse jeito”, teria dito a idosa.

O caso viralizou nas redes sociais, em que a mulher aparece tentando resistir à abordagem policial. Nas imagens, ela afirma: “Me pegaram na praia. Eu sou uma senhora de Brasília. É que em Brasília só tem branco e não tem ninguém armado desse jeito”.

Ainda nas gravações, é possível ver o momento em que a mulher age com certa agressividade contra um dos policiais enquanto tenta se soltar. Em outro trecho, ela declara: “Eu sou uma velhinha de 74 anos. Larga o meu braço. Em Brasília, nunca aconteceria isso. Meu avô também era preto, como eu posso ser racista?”.

A mulher, que não teve o nome divulgado, foi autuada pelos crimes de racismo e injúria.

Ofensas e agressões

O outro caso supracitado é o do advogado do Distrito Federal Johnny dos Santos Batista, ocorrido em 13 de março, no Ordinário Bar e Música. Johnny denunciou dois militares do Exército e um enfermeiro por agressão, racismo e homofobia.

Segundo o advogado, ele levou um soco no rosto supostamente dado por um ex-militar do Exército Brasileiro.

Ao menos três homens o agrediram física e verbalmente. Um deles, que seria militar da ativa do Exército, teria dito: “Quem deixou vocês entrarem? Como deixaram vocês entrar sem revista? É melhor vocês irem embora. O recado foi dado”. Depois, completou: “Ainda é viado”.

Momentos depois, um ex-militar do Exército, que hoje é enfermeiro, teria dado um soco em Johnny.

O caso é investigado pela PCDF. Em nota, o Ordinário Bar e Música confirmou a “discussão que evoluiu para agressão física” e reprovou a conduta. O estabelecimento reforçou ainda que repudia qualquer forma de discriminação, violência ou atitude que comprometa o respeito e a convivência pacífica.

Por Jornal do Paranoá
Fonte Metrópoles
Foto: Arte / Metrópoles