Experiência imersiva no Panteão da Pátria recria atuação de Anna Nery

Panteão da Pátria ganha instalação em realidade virtual que leva visitantes à Guerra do Paraguai. Experiência aproxima visitantes de Anna Nery, patrona da enfermagem brasileira

Os vitrais coloridos e a arquitetura de Oscar Niemeyer fazem do Panteão da Pátria um dos monumentos mais emblemáticos da capital. Agora, esse cenário também abriga uma instalação permanente de realidade virtual que transporta o público para uma tenda médica da Guerra do Paraguai (1864-1870). A partir de hoje, o público vai acompanhar, como se estivesse na linha de frente da guerra, o trabalho humanitário de Anna Nery, considerada a patrona da enfermagem brasileira e a primeira mulher inscrita no Livro dos Heróis da Pátria.

A produção chama-se “Quando Nasce uma Heroína”, e é exibida por meio da Ilha VR Autônoma, uma estação de realidade virtual instalada no interior do Panteão, até junho de 2027. O sistema funciona em autoatendimento. O visitante deve se sentar, colocar os óculos e iniciar a experiência. Não há necessidade de acompanhamento técnico nem de conhecimento prévio sobre a tecnologia. Por cerca de cinco minutos, o filme utiliza imagens em 360 graus e áudio espacial.

Imersão

Durante a narrativa, quem usa os óculos assume o papel de uma pessoa atendida por Anna Nery em uma tenda de campanha durante a Guerra do Paraguai. A enfermeira conversa diretamente com o visitante, pede ajuda para observar um soldado ferido e compartilha um pouco da missão de cuidar de homens feridos dos dois lados do conflito. O resultado é uma experiência que mistura cinema, tecnologia e memória histórica.

A instalação foi posicionada ao lado do Livro dos Heróis da Pátria, onde está inscrito o nome de Anna Nery. Segundo o diretor do filme e co-fundador da Caixote Histórias Imersivas, Filipe Gontijo, essa escolha foi intencional. “Ela a primeira mulher inscrita no Livro dos Heróis da Pátria. A ideia era deixar a estação bem próxima do livro de aço, para que as pessoas conheçam a personagem e, logo depois, possam praticamente encontrá-la dentro da experiência. É um jeito de fazer a história ganhar vida dentro do museu”, explicou.

Gontijo destacou que um dos principais objetivos do projeto foi tornar a tecnologia praticamente invisível para o visitante. “A ideia era que a tecnologia desaparecesse. O visitante não precisa pedir ajuda, não precisa esperar alguém operar o equipamento. Ele simplesmente senta, coloca os óculos e, em poucos segundos, está dentro da história”, disse. 

Produzido pela Caixote Histórias Imersivas, estúdio brasiliense especializado em cinema em realidade virtual desde 2015, o filme foi gravado com câmeras compostas por múltiplas lentes, permitindo que o público olhe livremente para qualquer direção durante toda a narrativa. “É como se fosse um cinema em que você está dentro do filme. Diferentemente de outras experiências de realidade virtual voltadas para jogos, aqui nós trabalhamos com atores, cenário real e interpretação. O espectador deixa de assistir à história para vivê-la”, enfatizou.

A obra foi produzida em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e percorreu festivais nacionais e internacionais, passando por Gramado, Curta Brasília e o Marché du Film, em Cannes (França), além de receber premiações na Argentina, México e África do Sul. A experiência está disponível em português, inglês e espanhol e conta com recursos de acessibilidade no site da produtora.

Emoção

Mais do que apresentar uma personagem histórica, o filme também provoca uma reação emocional no público, especialmente, entre profissionais da enfermagem. “Os enfermeiros costumam chorar. Quando a Anna Nery se aproxima e fala diretamente com quem está usando os óculos, muita gente sente vontade de responder. No fim, ela diz: ‘Que bom que você está aqui para continuar o meu trabalho’. É um momento muito forte e que todos se emocionam”, afirmou.

O diretor disse que acompanhar essas reações do público é uma das maiores recompensas do projeto. “Sou cineasta e, como artista, a gente quer tocar as pessoas. No cinema isso acontece, mas aqui é diferente. A sensação é muito mais intensa. Quando alguém tira os óculos, parece que saiu diferente. É um impacto muito profundo”, ressaltou Gontijo.

Entre os primeiros visitantes da instalação estavam o professor de história Rafael Garcia Rodrigues, 36 anos, e a a esposa, Luar Moreira Rodrigues, administradora, 33, moradores de Três Corações (MG), que visitavam Brasília como turistas. Mesmo sendo historiador, Rafael contou que a experiência apresentou uma perspectiva inédita. “Foi uma experiência muito legal. A gente estuda muito, mas essa história específica eu não conhecia. Gostei bastante e estou voltando para casa com mais conhecimento”, relatou. 

Segundo ele, a possibilidade de observar livremente o cenário faz toda a diferença. “A sensação é de realmente estar naquele ambiente. Eu ficava olhando para os lados o tempo todo porque você sente que está dentro da tenda. Não é como assistir a um filme porque nesse caso você participa da cena e sente vontade até de interagir com os personagens”, acrescentou o professor.

Para Luar Moreira, o aspecto mais marcante foi a carga emocional presente dentro da narrativa. “É muito profundo. Você sente a veracidade daquele momento. A sensação que tive era de estar mesmo naquela situação, vendo as pessoas machucadas, sentindo a dor delas e acompanhando todo o cuidado que a Anna Nery tinha com os soldados. Foi inspirador”, ressaltou.

A administradora contou que a interação da personagem faz o visitante esquecer que está usando um equipamento tecnológico. “A imersão é muito grande. Quando ela fala com você, parece que está olhando nos seus olhos. Dá vontade de responder de volta. Em alguns momentos eu precisei lembrar que aquilo era um filme”, avaliou Luar.

Fonte Correio Braziliense
Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press